Sunday, June 04, 2017

COMPLEXO DE CLASSE SOCIAL É COMPLICADO

Uma atriz conhecida foi duramente criticada nas redes sociais (que representam hoje a opinião predominante) por ter declarado que ela e sua empregada votavam diferente, por razões de classe social. "Quem vota em PT é minha empregada", teria dito.
Naturalmente, fervilharam críticas, para mais uma postura que revela a insegurança e o medo de quem foi pobre, de nivelar-se aos que são pobres.  
É o novo conceito do velho complexo de classes, que abusa da ideia de senhores e escravos. Nos tempos feudais as sociedades firmavam-se sob o conceito da realeza, da nobreza e...da massa que trabalhava nos campos e vivia miseravelmente. 
Ao longo dos séculos, o mesmo conceito que separava semideuses dos mortais comuns, ou ricos de pobres, conseguiu manter a sociedade produtiva, com mão de obra barata e ignorante, foi considerado essencial para a sobrevivência. Uma falsa ideia que reforçou complexo de classes e criou uma espécie de duas civilizações na terra: a dos privilegiados e a...de todos mais.
É claro que o grande peso nas sociedades, de ontem e de hoje, é o dinheiro. Dinheiro é poder, porque compra tudo, inclusive pessoas.
Mas será realmente a verdadeira fonte de poder?
Na visão de Nietzsche, o poder vem de várias maneiras. O poder financeiro, aliás, seria a mais fraca forma de poder, comparativamente ao poder da vontade humana. Sócrates por exemplo, o filósofo que sobrevive mais de 3 mil anos após sua morte, é considerado poderoso.
Nietzsche considera outras figuras históricas poderosas, como Goethe e Lutero! É o reconhecimento do potencial máximo do homem, que o tornaria um super-homem.
Bem, é uma visão interessante. Podemos estabelecer uma comparação entre a coragem do filósofo Sócrates e a demência de Hitler, que certamente também usou todo o seu potencial para dominar o mundo e livrar-se das populações que incomodavam seus planos.
No entanto Sócrates agia em favor dos fracos, enquanto Hitler se aproveitou da fraqueza de suas vítimas.
Sócrates foi obrigado a tomar cicuta, Hitler teria cometido suicídio após sua derrota.
Mas a morte semelhante de pessoas tão opostas em seu objetivo é um indício de que a sociedade é exatamente regida pelos fortes, mas a força de cada um é muito relativa e temporal. O motivo é óbvio: nem sempre aqueles que sao escravizados são fracos.
A força apoiada no poder que pretende escravizar, sempre vai encontrar a força que habita qualquer natureza, inclusive a dos seres humanos.
Ao considerar uma ideologia que pretende  a democracia como sendo "coisa de pobre" pelo fato de tentar reduzir a distância entre os ricos e pobres, essa atriz evidenciou a fragilidade moral da nossa sociedade.
Mas também expôs a imensa hipocrisia que permeia uma realidade de fragilidade da nossa cultura. Resumiu o pavor que se esconde sob a mentalidade do poder baseado única e exclusivamente no poder financeiro que cria um falso valor, onde a bela viola esconde o pão bolorento.
A ideia é "se tenho dinheiro estou protegida da pobreza e, portanto, sou forte".
E sendo assim, provavelmente não será desprezada ou ignorada, em uma sociedade que se apoia exclusivamente nessa condição.
Assumir políticas que poderiam fazer sua empregada menos pobre, seria enfrentar o terror de ser menos rica...e portanto mais frágil!
A mesma mentalidade de Hitler!
Admitir que parte da nossa sociedade, espalhada pelas ruas, nas empresas, no cinema e tv, nos centros de lazer ou de trabalho, é afetada pelo complexo de classe social e portanto influenciada pela mentalidade do poder baseado unicamente no dinheiro, é muito desagradável. Estamos sempre criando imagens de heróis, pessoas que vencem a trajetória de vida deixando exemplos do bom viver e da dignidade de viver.
Reconhecer que admiramos pessoas sem qualquer qualidade que não seja unicamente o verniz empregado para lustrar sua imagem, também é decepcionante.
Mas o maior problema desse complexo e desse medo de viver é a violência que é desencadeada pelos fracos que se apoiam no dinheiro e valores supérfluos, para poder sentir segurança e poder. Uma violência que cresce na mesma medida em que a mentalidade que despreza a vida se firma na ausência de valores imprescindíveis ao convívio social.
Com essa fragilidade moral, a sociedade torna-se presa fácil de déspotas e ditadores. A ilusão do poder financeiro como fonte de poder individual, se esvai dramaticamente.
A violência, que assume diferentes formas e intensidade, atinge a todos, ricos ou pobres, fortes ou poderosos, em escala cada vez maior. Ironicamente, pode vir de dentro para fora e portanto os mecanismos de segurança que são destinados a impedir que a violência invada a vida, tornam-se relativos e limitados.
Pode ser que dinheiro traga felicidade e poder. Mas não basta como único provimento para uma vida equilibrada e protegida, tampouco pode substituir a necessidade de valores que realmente garantam a segurança, individual ou coletiva.
Porque sem segurança coletiva, não há segurança individual. Já dizia o velho Sócrates!... (MM)

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